terça-feira, 19 de outubro de 2010

Reflexões sobre filosofia e história da história

O movimento da história da história é constante. Ininterruptamente questionada, a historia não permanece imutável em seus métodos e em seu entendimento como matéria. Pensar como o fazer e refazer a história acontece, ou deve acontecer, é marca da filosofia da historia: uma reflexão sobre a articulação do passado, seus perigos, problemas, seus porquês e desafios.

            Para a filosofia da historia vivemos um período conturbado, momento de mudanças nas estruturas do tecer histórico. Alguns sustentáculos, como o estatuto científico da historia, foram colocados em xeque; reflete-se sobre o que realmente a historia é; a historia é literatura, ciência, um pouco dos dois? O passado, um mistério, uma abstração, pode ser objeto de pesquisa cientifica? São questionamentos profundos que abalam o meio acadêmico e incomodaram mentes atentas aos problemas filosóficos e epistemológicos que se colocavam, e se colocam, nos artigos e escritos interessados em definir respostas ou mesmo nortes para tais problemas.

            Primeiramente entendamos o momento em que surgem os questionamentos chave da crise do pensar histórico pós-modernista. Num contexto de pensadores estruturalistas, perseguidores de lógicas universais, estruturas guias de uma evolução dos rumos da história, surgem alguns para romper com tais idéias. Com uma lógica de pluralidade de pensamentos, entendimentos, pontos de vista, comportamentos, culturas, os chamados pós-estruturalistas se enveredam num embate intelectual para fazer frente à dureza historicista, positivista, ainda remanescente no pensar e fazer histórico.

O questionamento das fontes, que para os positivistas era como a própria historia esperando para ser encontrada e escrita, é uma de suas propostas. “Os documento históricos não são menos opacos do que os textos estudados pelo crítico literário. Tampouco é mais acessível o mundo figurado por esses documentos. Um não é mais ‘dado’ que o outro. De fato, a opacidade do mundo figurada nos documentos históricos é, se é licito falar de opacidade, aumentada pela produção das narrativas históricas.”[1]As fontes devem ser destrinchadas, interpretadas, correlacionadas, elas mesmas foram frutos de interpretação, pensamento colaborador de sua lógica de pluralidade cultural, de pontos de vista, de fazeres históricos.

Grosso modo, todo o pensamento pós-estruturalista quebra a existência de uma verdade a ser perseguida; existem verdades, várias, tantas e tão complexas quanto quem as produz, os atores sociais históricos, os seres. “A historia anda na contramão da filosofia, da ciência, da religião, e do senso comum, que procuram uma verdade fora do tempo e protegem seus resultados com enorme cuidado.”[2] A história produz e reproduz verdades no tempo, não uma única, mas muitas, esse é o entendimento do fazer histórico pós-moderno.

            Ao quebrar o paradigma da verdade histórica os pós-estruturalistas têm em frente vários problemas: se a história não trata de encontrar uma verdade, o que ela encontra? Uma mentira? Para Hayden White as narrativas históricas são “ficções verbais”, sendo assim mais equivalentes à literatura do que com seus correspondentes nas ciências humanas. Surge a tese da história-literatura, e, por conseguinte, uma discussão intensa sobre a proposição de White; a história tem um elemento fictício e os historiadores ganhariam reconhecendo tal elemento. Os acontecimentos são neutros e o historiador apenas atribui através de uma estrutura de enredo uma verdade para um ocorrido, o objeto da dissertação. Para ele, isso “(...) serviria de antídoto eficaz para a tendência dos historiadores de apegar-se a preconceitos ideológicos (...)”; o historiador teria uma consciência maior de seu tecer histórico como relativo, assim como propõem os pós-estruturalistas. Mas a história então não fala de algo real? Os textos históricos são todos frutos de um delírio da mente de um hábil escritor romancista, cronista?

            O historiador e filósofo francês Paul Ricoeur aprofunda as idéia de Hayden White, vai além de estabelecer a imaginação literária como relativista de uma verdade histórica e recoloca a história como ciência interessada em tratar das experiências vividas. Ricoeur lembra que a linguagem é hermenêutica, suscetível a interpretações diferentes; o que gera histórias, verdades diferentes além do alcance e controle dos feitores dessas histórias. Ricoeur estabelece três etapas para entender o pensar, o fazer e a recepção de uma história: primeiro se pré-configura, se vive uma experiência, uma ação, um momento ou mundo já repleto de linguagem e culturas. Após viver uma experiência se configura, se compila em forma de linguagem inteligível o acontecido, combinando o “cronológico ao lógico” elabora-se a narrativa; todas, construções não autônomas, mas sim referentes ao vivido. Ao final a narrativa é recebida por alguém, fazendo a obra acontecer, um sentido é atribuído à ela; é a reconfiguração, tendo o texto como mediador entre o leitor e a realidade, a experiência vivida do autor, revisitada pela experiência do leitor.

            Fruto desse debate surge uma tese extremamente relevante do historiador e antropólogo italiano Carlo Ginzburg. Num texto tratando da evolução de um paradigma indiciário – existente na antiguidade, apagado pelo paradigma galilaico em busca de uma lógica universal, e ressurgido nos fins do séc. XIX – C. Ginzburg associa tal paradigma ao fazer histórico; o que o historiador deve entender como seu método de conformação de um passado já inexistente, intangível para averiguação.

A tese de Ginzburg é a de que assim como a psiquiatria eminente dos fins do XIX, como um Sherlock Holmes, o historiador deve ter “(...) por hábito penetrar em coisas concretas e ocultas através de elementos pouco notados ou despercebidos, dos detritos ou ‘refugos’ da nossa observação.”[3] Esses elementos pouco notados são os vestígios, os indícios do que foi o passado perseguido pala imaginação do historiador.  Ainda diz mais, chamando atenção a “(...) proposta de um método interpretativo centrado sobre os resíduos, sobre os dados marginais, considerados reveladores.”[4] Ginzburg lança mão de uma busca específica sobre indivíduos, momentos específicos, sociedades ou grupos específicos para o entendimento detalhado e preciso dos mesmos; um olhar micro, mais detalhado para evitar as generalizações e impertinências dos estruturalistas; a chamada micro história.

Ginzburg não evita H. White, afirma que “o conhecimento histórico é indireto, indiciário, conjetural”, ou seja, uma construção á posteriori. De acordo com P. Ricoeur uma configuração de um vivido que será reconfigurado por diversos leitores devido à propriedade hermenêutica da linguagem. Além disso, Ginzburg reforça a tese de Ricour, partidário de uma história-ciência, concordando com White sobre a história como retórica. Mas lembra, “a retórica não exclui a prova”, a estruturação lingüística de algo pressupõe provas, experiências vividas como sustentação da narrativa. Os historiadores produzem uma “avaliação provada do passado”.

            Muitas são as teses que instituem problemas e propõem soluções para a crise epistemológica da historia pós-estruturalista. Há um problema que está além dos limites do refletir metodológico da história, alcançando à ética, um porque ou utilidade do fazer história. A filosofia da história se ocupa de tratar também dessas questões. Pensadores como Norbert Elias, Michel Foucault, Roger Chartier, são exemplos de semeadores da auto-reflexão sobre a utilidade da história, o poder dos discursos; admoestam sobre o momento histórico o qual estamos inseridos e não damos devida atenção, ou não despertamos a consciência para observar em que nicho de pensamentos ou praticas estamos.

Para N. Elias estamos envoltos em um processo civilizador, algo que “aconteceu, de maneira geral, sem planejamento algum, mas nem por isso sem um tipo de ordem.”[5] Processo esse que “constitui uma mudança na conduta e sentimentos humanos rumo a uma direção muito especifica.”[6] O autocontrole, a supressão das pulsões e paixões humanas é a direção final e o próprio processo de acordo com Elias. Tal processo tem inicio nas cortes modernas francesas, a vanguarda da civilité; é recente e tem como locus inicial a Europa moderna, espalhando-se pelo mundo devido à extensa teia de relacionamentos criada pela expansão cultural e comercial engendrada pela Europa nesse período. A necessidade de sincronização das condutas faz a Europa exportar a civilização, gerando um movimento de tendência generalizante do processo à todos os cantões do globo.

Vivemos então num mundo onde a sociedade foi conduzida por um movimento inconsciente de civilização, movimento de supressão das violências individuais. Mundo esse que entregou o monopólio da violência e desígnios de punição a uma instituição, o Estado moderno. As questões de justiça, de sociabilidade, não são mais resolvidas individuo a individuo, mas sim são delegadas ao Estado e suas instituições competentes. É um mundo onde as batalhas antes resolvidas instigadas pelos sentimentos expressos, sejam pela violência física ou verbal, agora são transportadas para o interior do individuo, que deixa a cargo de “outro”, no caso o Estado, resolve-las. Elias afirma ainda que a “‘tendência’ do movimento da civilização é em toda parte a mesma”, estamos então num mundo em processo de civilização.

            Outra análise bastante pertinente é a de M. Foucault. O filósofo e historiador francês anima as discussões sobre verdade histórica, processos sociais, porquês do estudo histórico e o poder dos discursos. Voltando à discussão sobre verdade histórica, para Foucault existem regimes de verdade, momentos e locais em que uma verdade existe, mas logo deixa de existir dando lugar a outra. No intervalo das duas idéias existe uma luta, um dialogo combativo necessário e configurador de um novo regime de verdade. “Por ‘verdade’, entender um conjunto de procedimentos regulados para a produção, a lei, a repartição, a circulação e funcionamento dos enunciados. A verdade está circularmente ligada a sistemas de poder, que a produzem e apóiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem.”[7] Existe uma continua descontinuidade na história para Foucault, e é a essa descontinuidade que ele atribui os ‘regimes’ de verdade. Esses regimes se embatem devido as constantes relações de forças, de poder a que são submetidas as questões sociais, humanas. Mas para o filosofo e historiador M. Foucault “nem a dialética (como lógica de contradição), nem a semiótica (como estrutura da comunicação) não poderiam dar conta do que  é a inteligibilidade intrínseca dos confrontos”[8], deve-se elucidar que a “historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não lingüística. Relação de poder, não de sentido.”[9] Os historiadores são aqueles que identificam os momentos de tensão, os regimes de verdade, os regimes de poder, e criam configurações discursivas sobre as verdades, que no pensamento de Foucault, não existe sem o poder.

            As teses de M. Foucault e N. Elias são de certa forma estruturalizantes, tentam englobar a historia em algum tipo de lógica para se pensar o agora, o momento histórico vivido. Roger Chartier é mais direto e trata do agora, o que ele chama de momento pós-89, após a queda do muro de Berlim, um marco do processo de falência do império soviético. Para Chartier o sonho revolucionário socialista norteou muitas mudanças sociais, mudanças estruturais, e a própria historiografia. O marxismo foi dominante no séc. XX, com suas análises reveladoras de um querer revolucionário. Após a falência soviética o Marxismo, assim como a historiografia marxista, caiu em desuso por sua suposta derrota para o projeto capitalista. O momento então é de uma ausência de sonho, de projeto alternativo, de norte para engendrar uma literatura histórica engajada pela resolução dos problemas que não findaram nas sociedades do planeta. Para Chartier vive-se a alegria do presente, e ai reside o problema: não existe algo que instigue um olhar para o passado, ele está desinteressante.

O historiador Frank Ankersmit alerta para esses problemas. A falta de projetos, direcionamentos para a historiografia pós-moderna, ou pós-89, faz a escrita histórica ser além de plural e infinita em possibilidades devido ao discurso forte dos pós-estruturalistas. Passa também a ser uma mera performance plástica para tratar de temas que atendam as necessidades de um mercado. O mercado se impõe sobre as reais necessidades da sociedade e suas problemáticas são negligenciadas devido às questões já tratadas pelo pensamento de Roger Chartier.

É um momento estranho para a história. Momento de auto-reflexão e de mudanças. Auto-reflexão fruto das questões pós-estruturalistas, algumas ainda não completamente respondidas. O mundo pós-89 carece de saídas para o labirinto imposto pelo ‘regime’ de verdade vigente, se apropriando de M. Foucault. Mas a historiografia percebeu que a busca por um Deus, um lógica regente, um sentido para a história, não permite alcançar a amplitude de um passado misterioso. Ele é possível de se buscar pelos seus vestígios, indícios, complexos e reais. É o momento dos pensadores, historiadores, filósofos da historia reavaliar as intenções práticas dos usos da história e reaprenderem a enxergar o fazer historia. Enxergar o mundo de novas formas criando discursos originais, um novo mundo.



[1] WHITE, Hayden V.. Tropicos do discurso: ensaios sobre a critica da cultura. 2.ed. São Paulo: EDUSP.

[2] REIS, José Carlos. História & teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade. Rio de Janeiro: FGV.

[3] FREUD, Sigmund. Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infancia; O Moises de Michelangelo.

[4] GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e historia. São Paulo: Companhia das Letras.

[5] ELIAS, Norbert. O processo civilizador. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

[6] Ibid.

[7] FOUCAULT, Michel. Microfisica do poder. Rio de Janeiro: GRAAL

[8] Ibib.

[9] Ibid.

Ver também:
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1994. Volume 1.
_____________. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1994. Volume 3.

Judaismos na filosofia de Walter Benjamin

Walter Benjamin estudando em biblioteca
Benjamin, além da formação teológico-judaica, buscou uma formação marxista. Essa faceta benjaminiana foi a mais explorada, estudada na academia. Comentaristas do marxismo não pouparam esforços em desdobrar suas teorias em uma expressão singular, nova, do materialismo-dialético[i]. No entanto, sem anular a parcela marxiana em sua obra, seus judaísmos têm sido repensados pela historiografia recente.

A questão da linguagem benjaminiana é bastante pertinente. Sua escrita, pela forma, pelo trato, tipo de assunto, é, no que tange a teologia, enigmática. Benjamin utiliza as palavras, messiânico, messias, divino, paraíso, junto a expressões como política, história, experiência. Devido a isso, ao fato de produzir um texto de estética e assunto enigmático, sua obra é aberta. Como historiador, como filósofo, teólogo, como crítico literário, como artista, Walter Benjamin pode ser lido e decifrado[ii]. Alguns de seus escritos são como grandes aforismos, por vezes mais próximo da poesia do que da filosofia. Os aforismos dariam um bom sentido aos seus postulados, expressando de forma menos objetiva, ou seja, mais completa[iii], o íntimo de seu intelecto por vezes complexo.

Esse seu sincretismo lingüístico é explorado por Ugo Perone no artigo Walter Benjamin: modernidade e revolução[iv]. Perone promove um esboço de mediação entre o marxismo e a filosofia judaica. O tempo da revolução é o que Benjamin chama de tempo messiânico, no qual a humanidade irá se redimir do julgo de uma história arruinada.

Além da forma como Benjamin instrumentaliza a linguagem, pode-se observar a importância que o mesmo da à ela como criadora. Para efeito de exemplo, introduzo a seguinte máxima judaica: Da mesma forma que Deus cria, o homem, por Ele, foi criado para criar.

Assim, na leitura benjaminiana de Gênese 2:20, a língua adâmica responde ao verbo criador de Deus quando ela dá um nome aos animais; ao reconhecer o objeto como criado, ela o conhece na sua essência imediata. Por isso os nomes adâmicos só dizem de si, isto é, já do objeto na sua plenitude. A “queda” é a perda dolorosa desta imediaticidade, perda que se manifesta, no plano lingüístico, por uma espécie de “sobredenominação” (uberbenennung), uma mediação infinita do conhecimento que nunca chega ao seu fim.[v]

Deus, pela interpretação judaica, espera que o homem crie, melhore o mundo[vi], pela ação, pelo dom dado ao homem na gênese do tempo divino, o dom da linguagem[vii]. A vida como foi criada é “boa”, mas não perfeita. Pelo poder criador conferido ao ser humano, ele deve aperfeiçoar esse mundo, que jaz em ruínas, segundo Benjamin. A idéia messiânica[viii], de uma volta ao éden criativo – retorno a natureza adâmica e seu potencial criador – , pode ter sua origem nessa postura, essa percepção profética do fim; a consciência de que vivemos uma história arruinada, e que o mashiach[ix], ao chegar, em seu tempo, interrompe a história. Ele revoluciona, e, do ein-sof[x], erige a história novamente. Seria Benjamin um otimista, a espera do momento messiânico redentor. Poderia assim a metáfora messiânica ser objetivamente interpretada, o mashiach como um momento, uma expectativa de futuro[xi].

O tempo, objeto impalpável dos estudos históricos, também é tratado em sua obra. A medida teológica na sua concepção é crucial para o seu entendimento. Dialogando com Hegel, Deus é a própria história[xii] em Benjamin, mas é como HaShem[xiii]: o é de forma plástica e não progressista como em Hegel. O tempo é o que foi, o que é, o que será: o passado, o presente e o futuro. Logo, dentro da esfera tradicional teológica temos uma concepção vanguardista, por seu caráter metafórico, não literal da figura do Adonai[xiv] dos judeus, como o tempo, como a história.

Ainda na discussão sobre o tempo, no final das teses Sobre o conceito de História, é delineada a questão da consulta ao passado e da consulta ao futuro. Benjamin nos lembra que a Torah[xv] admoesta aos judeus a não consultarem o futuro, mas incentiva a rememoração do passado. Dessa forma, o historiador, assim como os observantes da Torah, deve se ocupar do passado, articulado no presente. Não deve se preocupar com o futuro, pertencente ao Mashiach, ao tempo certo da revolução[xvi], que para Benjamin é inevitável. Também, devido à capacidade criativa do homem, o futuro não pode ser esboçado, previsto.

Nem marxista ortodoxo, nem judeu ashkenazita tradicional[xvii], Benjamin era um homem de identidade fragmentada, escrevia e se expressava acerca de seu mundo, não importando a matéria; um prospecto do homem do século XXI com a alma de um literato da modernidade. Participe de cultura religiosa e política, a principio discordantes – judaísmo e marxismo –, tratou de aliciar uma a serviço da outra. Ora teólogo, ora historiador e político, ora “teólogo-político”, parecia ter como mitzvah[xviii] viver para criar a conciliação mal vista pelos acadêmicos, entre a filosofia, a política e a teologia. Conhecimentos que Walter Benjamin lograria em sua obra serem complementos necessários um do outro.




[i] Ver KONDER, Leandro. Benjamin e o marxismo. Alea, Dez 2003, vol.5, no.2, p.165-174.

[ii] Ver FUNARI, Pedro Paulo. Considerações em torno das “Teses sobre filosofia da  História” de Walter Benjamin. Revista Crítica Marxista, Unicamp - SP, Nº 3, 1996. Disponível em: http://www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista/3_PPFunari.pdf, acessado em 23/08/2010. ), Funari observa que Benjamin se exprime “através de recursos não acadêmicos e, até mesmo, extragramaticais, como o uso de imagens (...)” com um  “estilo do texto, fortemente estético, entremeado de citações poéticas e pictóricas, constrói-se, também, com essa imagética, como, em particular, nas analogias e metáforas”.

[iii] Como suas proposições são por vezes demasiadamente vagas, as possibilidades de interpretação aumentam, tornando sua obra pertinente a diversas situações, também por esse motivo.

[iv] Ver PERONE, Ugo. Walter Benjamin: Modernidade e Redenção. PENZO, Giorgio; GIBELLINI, Rosino. Deus na filosofia do Século XX. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000. p. 323.

[v] Ver GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e narração em Walter Benjamin. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004. p. 17-18.

[vi] Ver GILLMAN, Neil. Fragmentos sagrados. Comunidade Shalom.

[vii] Gen. 2: 19,20

[viii] Introduzo aqui uma interpretação minha a respeito do entendimento de messianismo na obra de Benjamin. O Mashiach judaico, remete a um tempo futuro, ainda não concretizado, um tempo em que haverá um novo homem: um homem com consciência criativa, de seu papel histórico.

[ix] Messias dos judeus, que ainda está por vir em um tempo futuro e misterioso.

[x] O nada místico da Kabbalah. A partir dele surgem os 10 atributos ou emanações divinas, as 10 Sefirot.

[xi] Ver KOSELLECK, Reinhart; MAAS, Wilma Patricia Marzari Dinardo; PEREIRA, Carlos Almeida. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio : Contraponto, 2006.

[xii] Ver HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich,. A Razão na historia: uma introdução geral a filosofia da historia. 2. ed. São Paulo: Centauro, 2001. p. 21.

[xiii] “O Eterno”, em hebraico. Alem de Adonai, Senhor, é um dos nomes de Deus na Bíblia Hebraica. O intuito é chamar a atenção para o fato de um de HaShem ser um atributo temporal, o eterno: passado, presente e futuro contidos em um só ser.

[xiv] “Senhor”, em hebraico. Um dos Nomes de Deus na Bíblia hebraica.

[xv] O objeto mais sagrado do judaísmo, as escrituras dadas a Moises no Sinai (pela tradição). Equivale ao Pentateuco presente na Bíblia cristã.

[xvi] Essa revolução que ocorrerá em um futuro próximo seria, nos seus termos marxianos, um inevitável movimento da história para Benjamin. Para expressar esse postulado Walter Benjamin utiliza uma metáfora messiânica, onde o messias incorpora a Revolução de Karl Marx.

[xvii] Ashkenazi é o judeu oriundo da Europa central; aparece em referencias em torno do século X d.c. Também é o nome dado a essa região, em hebraico medieval.

[xviii] Palavra hebraica para designar a Lei, as observâncias que um judeu deve seguir.

Histórico do liberalismo norte-americano


Pais Fundadores da Nação
Desde os “pais fundadores” do século XVII os EUA detêm um futuro delimitado; eles, os habitantes da Nova Inglaterra, acreditavam que ali, naquelas novas terras, fundariam além de um novo povoado, um novo povo. Esses pensamentos serão em grande medida fomentadores do processo de independência, e sua consolidação com as guerras civis do século XIX. Um país que prima pela liberdade, e têm um destino traçado, o destino de abrigar grandes homens, líderes, só poderá também ser grande, e um líder, acreditavam os indivíduos da Nova Inglaterra. Toda essa trajetória cria uma identidade específica para a nação americana, identidade essa que triunfará no século XX, quando a América se intitulará guardiã do mundo ocidental, e, adentrando o mundo oriental. É essa trajetória política, econômica, militar, dos EUA do século XX, que o livro “O Século Inacabado – A América desde 1900”, organizado por William E. Leuchtenburg, trata com detalhes.

A obra trata da história dos EUA em todos os seus aspectos, trazendo visões diversificadas e análises profundas. Tendo em vista tanto as dinâmicas internas quanto externas dos processos pelos quais o país passou, a obra, ao meu ver, prima pela política externa norte-americana, e é nesse aspecto que vou me deter. Os EUA têm sua história no século XX marcada por sua liderança internacional; essa nação cria novas regras para o jogo político mundial, colocando o então centro do mundo – a Europa – em segundo plano, e tomando seu lugar como protagonista.

O início do século foi duro e é analisado no primeiro capítulo do volume II por Robert. H. Ferrell. O capítulo intitulado “O Preço do Isolamento”, é uma visão dos primeiros anos da século XX até seu acontecimento mais marcante, a II Grande Guerra.

Aqui o autor nos mostra os anos 20 do Presidente Coolidge, marcado pelo seu extremo liberalismo econômico, culminando em seu ultimo ano de mandato, 1929, numa crise em escala mundial, com o chamado “crack” da bolsa de Nova Iorque.

Os anos de recessão que se seguiram foram difíceis. As exportações, que em 1920 marcavam os U$ 8.664 milhões, chegaram a U$ 2.300 milhões em 1935. Essas foram as conseqüências da crise de especulação gerada por um complexo de problemas, mas que a política liberal de Coolidge contribuiu em grande escala. Mas tal acontecimento mostra que já nesse momento os EUA desempenham um papel central na direção dos mercados que começam a se integrar e criar o que virão a chamar de economia de mercado mundial.

Os anos 1930 foram aqueles que sofreram as conseqüências dos excessos do início do século, a chamada Depressão. Políticas econômicas tentavam barrar a convulsão de problemas gerados pelo seu estopim, a queda da bolsa de Nova Iorque, e a política externa norte-americana ficou de certa forma paralisada. Mas para R. H. Ferrell a crise econômica ajudou a resolver uma questão ainda remanescente da I Grande Guerra, a charada das dívidas e reparações de guerra.

Após muito esforço as economias se reerguem, e o mundo se depara com novas questões e problemas, a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha. O presidente em exercício desde 1933, Franklin Delano Roosevelt, foi o encarregado de tratar essas questões. Para Ferrell, Hitler é um novo Átila, e o EUA aquele de tem o dever de freá-lo. E, segundo Ferrel, é o que faz; em suas frentes do Pacífico e do Atlântico, chegam triunfais até Berlim, destronando este Átila alemão e erigindo um novo império, o norte-americano. Os números de exportação mudam: os singelos U$ 2.300 milhões de 1935, passam para U$ 10.100 milhões em 1945. O EUA exporta para o mundo.

Roosevelt é um presidente com grande habilidade diplomática e senhor de um bom senso raro. É ele quem reconhece a URSS como nação, algo que os presidentes anteriores ignoraram, e reconhece sua grandeza, em especial após a II Grande Guerra.

Após a guerra, novas questões se colocam, e os EUA tomam frente na conformação dessa nova sociedade oriunda dos suplícios dos anos de guerra. Essa análise é feita por David F. Task, em seu capítulo de nome “A República Imperial”. Em abril de 1945, em São Francisco, é reunida uma conferência de nações com o intuito de redigir a carta constitutiva de uma agência de segurança global: a Organização das Nações Unidas. O fato de sua sede ser em Nova Iorque é sintomático dos planos Americanos para o mundo. O Kremlim não via nada na organização que parecia garantir o futuro da URSS. Os EUA então se conformam, ou se impõem, como potência chave para organizar o mundo liberal.

As décadas do pós-guerra são complexas, e a chamada Guerra Fria é uma constante; são guerras veladas em nome de outros – o Vietnã é um exemplo. Não só explicitamente, mas presente no dia-a-dia de todos, a Guerra Fria – esse entrave político entre comunistas e capitalistas liberais – é conformador de uma geração conflitante. Os movimentos sociais de toda sorte, tendo como palco os EUA, são exemplos de como a sociedade do pós-guerra passou a refletir e repensar tradições; passou então a configurar novas idéias e visões de mundo. Muitas tradições remanescentes não cabiam mais num mundo em que os direitos humanos gritavam. A emancipação feminina, dos negros, são exemplos de lutas do contexto dos filhos da II Grande Guerra. Esses são os precursores de um novo dia, aqueles que lutaram pela efetivação das liberdades tão caras ao imaginário norte-americano. Tais questões foram abordadas por William E. Leuchtenburg, em seus capítulos “A Cultura de Consumo e a Guerra Fria” e “As Dores de Parto do Liberalismo”.

A economia de mercado se impõe, a cultura do consumo é exportada e o American Way of Life é refletido para todos os cantões do mundo. Mas nas palavras do autor, esse triunfo foi como um parto. Foram processos difíceis, “distúrbios que quase destruíram” o mundo que se conhecia, e culminou no erigir de uma nação como o mundo contemporâneo ainda não havia vislumbrado. Os moldes políticos norte-americanos são exportados e eles extrapolam até os limites terrestres, dominam os astros, chegam a Lua em 1969. Contudo todo esse discurso é claramente recheado de um nacionalismo exacerbado, presente em toda a obra. Em alguns trechos de forma declarada. Os autores supracitados estão convictos de que os EUA cumprem um papel quase providencial de líder mundial, demonstrando sua superioridade e controle sobre o globo como prova disso.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sir. Isaac Newton - Entre a ciência e a teologia

 Algo que sempre me intrigou é o desenvolvimento da moderna ciência e sua relação com a teologia. De fato, ao se analisar o surgimento da ciência moderna européia, é simples observar que seus mais bem sucedidos apostolos, nos vários âmbitos do conhecimento - humanidades, ciências matemáticas, história natural -, são orindos das camadas intelectualizadas das igrejas Católica, Anglicana, Luterana e demais. Isso é simplificadamente explicado pelo monopólio que essas instituições exerceram sobre o conhecimento, secular e teológico, até a modernidade. Os depósitos desse conhecimento, as bibliotecas, e seus códigos de interpretação, eram de pertencimento e uso exclusivo dos membros dessas instituições poderosíssimas.

Visto isso, uma relação lógica entre a produção de conhecimento científico e quem são seus agentes produtores é estabelecida; são esses membros do  próprio corpo eclesiástico ou algus poucos com acesso a essas bibliotecas e ao estudo dos códigos de interpretação, em especial o latim - grosso modo, lingua oficial do registro escrito na cristandade europeia, do império Romano até meados do séc. XIX.

Como estudante de graduação no curso de História, frequentador de cursos livres de Teologia Judaica e Cristã, curioso a respeito das relações estabelecidas pela religião historicamente e contemporaneamente, minhas inquietações sobre as relações entre os saberes teológicos e científicos aguçaram ao perceber o processo supracitado. Nesse sentido, uma de minhas buscas mais interessantes foi a respeito de Sir. Isaac Newton, esse inglês que influenciou de forma incontestável a forma de se fazer ciência, logo, a totalidade da sociedade dita moderna e contemporânea. Conhecido por todos como um dos pais fundadores da ciência moderna, observamos sua teoria da gravitação universal como a obra prima de sua vida. O livro "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural", onde expõe suas mais bem acabadas conclusões a respeito de uma lógica física e matemática balisadora dos movimentos dos astros e corpos materiais existentes em nosso Universo, é, por poucos conhecida, como uma obra teológica, mas sim uma obra de ciência pura. Não afirmo aqui sua exclusividade teológica, mas sua parcela. Newton não apenas era um estudioso das ciências naturais, tão discutidas na Royal Society, mas também um entusiasta dos estudos de algo poderoso em seu tempo, as "verdades" da teologia.

Capa de livro de estudo sobre as profecias
 de Daniel; autoria de Sir. Isaac Newton.
Fluente em latim, grego e hebraico antigo, dono de uma vasta biblioteca que abarcava um grande número de obras de cunho teológico, dedicou-se em grande medida ao estudo dessa matéria. Em busca de um verdadeiro cristianismo, purificado das corrupções de tradução e interpretação cometidos pela tempo, Newton era um apologista de um cristianismo à sua própria maneira. Como assinalado acima, Issac Newton, curioso e imbuído de espírito investigador, teria estabelecido estudos científicos, essa busca por uma lógica Universal nos movimentos dos corpos materias, com o propósito de elucidar, com uma linguagem científica, a existência e forma de atuação de Deus. Essa conclusão a priori rasa ou infundada pode ser averiguada no próprio Principia, onde Newton expõe em um pequeno capítulo suas motivações em estudar a lógica regente do Universo.

É claro que a forma cartesiana, empírica de se fazer uma investigação sobre algum problema está presente em Newton. Afinal, ele é fruto dessa geração que reinterpretou os clássicos da filosofia antiga, dos gregos e romanos, mediados pelas escolas de tradutores de origem árabe, como a de Toledo. Porém, talvez para não macular esse baluarte da ciência moderna com os princípios "irracionais e sujos" da teologia, sua parcela de motivação teológica não é lembrada, é esquecida.

Para ver mais: http://www.newtonproject.sussex.ac.uk/prism.php?id=1 (Newton Project - Projeto da Universidade de Sussex, Inglaterra. Esse projeto almeja a publicação on-line de textos conhecidos e não conhecidos de Isaac Newton. Dentre os não conhecidos se encontram um número imenso de obras de teologia, corroborando com a tese de suas motivações teológicas nas investigações acerca do Universo e sua lógica matemática)